domingo, 28 de junho de 2015

Desculpem a franqueza

"... mas não perdoo certas fraquezas. Talvez, nestas palavras, você encontre um carinho. Ou até mesmo um tapa. A escolha é sua. Eu sei bem: você o amou. Como nunca amou alguém, como nunca irá amar e mais todo aquele clichê que insistem em dizer. Este é o tal problema.

Babacas sempre existirão. Assim como distâncias, erros ou diferentes fases. Em todas estas, há sempre dor. Mas é também preciso existir amor: o próprio. Existe um limite que deve ser respeitado e cabe a você traçá-lo. Existe um momento em que é preciso escolher entre o "amor" pelo outro e o amor pela única certeza que sempre existirá: nós mesmos. Entenda isso bem.

É difícil alguém nos amar se nós mesmos não o fazemos. E com tantos desamores próprios, você consegue imaginar onde isso (não) te levará."

sábado, 20 de junho de 2015

Sexo no primeiro encontro

Certa vez conheci uma mulher na balada. Vestido curto, tatuagem no ombro, batom vermelho e o copo de bebida na mão. Sabe aquele olhar de mulher safada? Aquela que você olha e já sabe bem o que ela veio fazer ali. Essa tinha exatamente esse olhar, o que para mim era perfeito, já que eu havia saído de casa naquela noite com o mesmo objetivo. Formulei algo engraçado para dizer na primeira abordagem. Ela sorriu. Conversamos por alguns minutos até que veio o convite para dançar. Mal sabia ela que eu era simplesmente irresistível nesse quesito. Depois de um ou dois copos aconteceu então o primeiro beijo. E que beijo! Tem gente que beija com a intensidade de quem faz compras de verduras no supermercado. Já outros são como um adolescente escolhendo o seu primeiro carro. Definitivamente ela era desse segundo grupo. Acreditem em mim, o beijo foi surreal. Daqueles com direito a mordida no lábio, puxão de cabelo, mão por dentro da camisa e lambida na orelha. De duas uma: ou eu era naquela noite o homem mais gostoso do universo ou aquela mulher tinha bebido o triplo do que eu bebi na minha vida inteira. Foi impossível parar de beijá-la durante toda a noite. 

Quando fui deixá-la em casa e me perguntou se gostaria de entrar eu não pensei duas vezes. Sim, foi sexo no primeiro encontro. A melhor noite de sexo da minha vida. Foi aí que descobri que o forte dela não era o beijo. Haviam habilidades ainda maiores. O sol chegou e nós ainda não tínhamos dormido. A vida correndo lá fora e eu ali ofegante, com aquela estranha deitada em meus braços. Antes de me despedir trocamos números de celular por mera formalidade. Todo mundo sabe que casais que vão para cama no primeiro encontro não tem como darem certo. Sabe, talvez se tivéssemos ido mais devagar as coisas poderiam ter sido diferentes. Quem sabe? 

Muitos anos já se passaram e aquela noite ainda não saiu da minha cabeça. Curioso como algumas pessoas passam pela nossa vida e nem se dão conta de que deixaram marcas profundas. Eu nunca mais vi a minha professora do primário, nem a minha namoradinha do curso de inglês, mas, a mulher que conheci naquela noite, nunca mais saiu da minha mente. Agora mesmo ela está ali na cozinha, preparando a lancheira que o nosso filho caçula leva para a escola. Depois vai vir aqui no escritório me dar um beijo igual àquele que ganhei na boate tempos atrás. De noite repetiremos mais uma vez nosso sexo selvagem. Não é de se espantar? A moça do vestido curto se tornou a mulher da minha vida. 

Eu não sei bem como vai acontecer com você. Se vai conhecer seu grande amor na fila do pão, na sua festa de formatura ou no acampamento da igreja. Eu não sei se vão se beijar no primeiro encontro ou se farão sexo só depois do casamento. O que eu sei é que não existe regra para tudo isso dar certo. Vejam vocês a minha história. A mãe dos meus filhos gosta de beber, tem tatuagem e é uma depravada na cama. Ao mesmo é uma mãe incrível e um esposa fiel, carinhosa e companheira. Nossa sociedade é mesmo repleta de normas e rótulos, felizmente a maioria deles não funciona o tempo todo.

- Rafael Magalhães

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Desculpa por ser um idiota

Me entende: eu não quis, eu não quero. Eu sofro, eu tenho medo. Me dá a tua mão. Entende, por favor. Eu tenho medo, merda!
 
Ontem, eu chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas. Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que, infelizmente, hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Sozinho. Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
 
Prometo tentar ser feliz sem você.
 
Já volto!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Talvez eu tenha assumido responsabilidade mais do que posso aguentar

"Talvez eu tenha assumido responsabilidades mais do que eu posso aguentar e os ombros doem tanto que tenho vontade de chorar. Talvez eu tenha prendido choro demais porque tenho que ser forte, porque tenho que seguir de pé sem descansar. Talvez eu precisasse de um pouco mais de tempo para mim, talvez eu merecesse mais atenção, mas como? Não dá mais. 

Talvez eu tenha medo de parar e não conseguir mais continuar. Talvez eu nem possa prosseguir, na verdade, mas sei que seguirei mesmo assim. Tenho encontrado forças onde não tenho desde muito tempo, torcendo que eu não caia de vez, pedindo aos céus que me sustente quando eu quiser desabar. Os dias têm sido repetidamente difíceis, sobrecarregados, e vivê-los um de cada vez é a saída para manter a mente sã. É que, apesar da vontade de gritar e soluçar em lágrimas como criança desesperada, todo e cada dia eu respiro fundo e peço perdão a Deus por ser tão falho, porque a verdade é que sou imensamente abençoado pelo privilégio de conseguir carregar cada uma dos meus fardos e por tê-Lo ao meu lado caminhando comigo. Um dia hei de ser um filho melhor e parar com essa coisa de reclamar."

- Rachel Carvalho

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pra terminar, mal começou

"Pra terminar, mal começou. Pra continuar, nem iniciou. Não se teve nem se quer um parágrafo, muito menos dois cúmplices. Não existiram vírgulas nem espaço. Foi muita tinta pra pouco papel. Esqueceram da arte preocupados com a cor do pincel.

Muitas intrigas, bastantes confusões. Tentavam continuar juntos, mas não existiam compreensões. Onde um amor que tinha tudo pra dar certo não transborda, porém derrama... A falta de segurança alarma desconfiança."

- Um nordestino disse; Luís Henrique

sábado, 25 de abril de 2015

Mas é passado, já ficou pra trás

Caro ex amor,

Você se foi, é verdade. Pensando bem, quem foi embora fui eu. Bom... Isso não é mais novidade para ninguém. O tempo se passou, reconstruímos nossos caminhos. Mas, desde então, eu não mais te escrevi. Você deve ter percebido, se acaso vasculhou minhas redes sociais. A verdade é que você já não faz mais parte dos meus rascunhos. Não há mais seu nome ou sua imagem em minha mente. Tudo passou. O que ficou foi um breve flash das lembranças. Mas ando tão ocupado comigo, meu bem, que te esqueço nos lugares em que vou. Você sabe, sempre fui desajeitado. Vivia esquecendo alguma coisa no carro, na sua casa, nos lugares em que íamos. Acredito que em algum desses lugares eu deixei você. 

E só torno a lembrar quando algo forte te traz à tona para minha vida. E isso já não mais acontece. Preciso te dizer que estou feliz. Entre algumas de minhas andanças, descobri que o amor pode ser diferente do que o que tínhamos. Descobri o amor em outras maneiras. Em outros corpos, em outros gostos. A começar por mim. Conheci o amor que tinha por mim, e que, no fundo, sempre insistiu em ser grande, mas você ocupava muito espaço aqui dentro, e quase não deixava lugar para mais nada. E não, não se culpe, a culpa não foi sua. Pelo contrário, foi inteiramente minha. 

Antes de terminar, gostaria de dizer que estou ouvindo aquela música que um dia foi nossa. E é engraçado, porque ela não me traz más lembranças. Ela não mais se encaixa na história de nós dois. Parei com aquela mania de associar músicas à pessoas, e a música que um dia foi nossa, hoje faz trilha sonora de outra história, que já não te tem como personagem principal. Custei a acreditar, mas tudo acabou. De nós dois não restou nada, só as lembranças e os antigos textos que te escrevi. De você já não guardo mais nada, e eu sinto muito, mas eu preciso te dizer: agora é tarde demais para você se arrepender.

- Débora Laís

quinta-feira, 12 de março de 2015

Sobre um casal ser expulso por demonstração de amor

"Bom dia, pessoal!

Este é um pedido oficial de desculpas. A todos aqueles que acreditam que o amor é que nem sorvete: tem de todos os tipos, todos os gostos e de todas as cores.

Ontem a intolerância falou mais alto na nossa lojinha tão amorosa e querida. Infelizmente.

Um cliente e seu namorado foram expulsos de nosso estabelecimento devido a atitude isolada e sem autorização superior de um de nossos funcionários que havia recebido uma reclamação de outro casal, dizendo que os dois meninos estavam "desrespeitando o ambiente familiar da loja".

Não há outra ação esperada da Me Gusta senão um pedido de perdão.

Estamos profundamente tristes e perplexos com o ocorrido. Queremos nos retratar publicamente com o casal. Por eles terem passado pela degradante situação de se sentirem errados, quando não fizeram nada mais que demonstrar o sentimento que sentem um pelo outro. Sentimento lindo esse, diga-se de passagem.

A culpa não é exclusiva do funcionário. Não é também só do outro casal que se sentiu incomodado. A culpa é da Me Gusta.

Trabalhamos com pessoas. Não só com picolés! Devemos saber da conduta das pessoas que empregamos em nosso estabelecimento. Devemos orientar e situar nossos funcionários no século XXI. Devemos investir em debate e treinamento pessoal para que essa situação nunca chegue a existir. Devemos focar nossa comunicação na tolerância e falar abertamente de amor ao próximo e humanidade. Nos gabamos de não termos robôs em nosso trabalho 100% artesanal. Mas não podemos nos orgulhar disso quando casos desse tipo acontecem.

Por isso, reforçamos aqui o compromisso: a empresa Me Gusta Picolés Artesanais não vai deixar mais isso acontecer. Podem confiar! Nossa política sempre foi em prol da diversidade da compaixão e do respeito. A discriminação é um crime e um problema social muito grave. Abraçamos aqui e agora a missão de combater isso!

Gostaríamos de dizer que estamos atrás de uma resolução. Já tomamos as medidas contratuais cabíveis e contatamos os meninos para que pudéssemos expressar nossa solidariedade e nossa vontade absoluta de superar o ocorrido.

Por fim, pedimos desculpas a TODOS os clientes da Me Gusta. Vocês, que sempre foram bem tratados nesse ambiente que é mais que um negócio para gente... É nossa segunda casa.

Consideramos justa TODA forma de amor. Consideramos como família, QUALQUER tipo de família. Aqui tem espaço para o mundo todo! Não vamos deixar que uma expressão tão covarde, violenta e nojenta como a homofobia fale mais alto que o "hmmm" que as pessoas falam depois de tomar nossos sorvetes.

Obrigado pela atenção!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sou viadinho mesmo, por quê?

"E no diminutivo, porque tenho míseros 1,68 na altura e poucos 54kgs de massa corporal. Se fosse mais alto e parrudo seria um viadão! Porque de forma alguma minha sexualidade deveria ser algo usado como ofensa. Bicha? Dona bicha, por favor! Aqui é assim: só tem bicha nessa cidade! As que não são mortas e massacradas pela falsa moral e os bons costumes, são silenciadas pela lei do "pode ser gay, mas seja discreto." DISCRIÇÃO MEU CU! Isso mesmo, meu cu! Ouviram bem? Cu! Aquele orifício que a mulher também "dá" e que o homem quando o faz perde sua macheza. Onde já se viu tanto fiscal do cu alheio como hoje, hein?

Eu e minha galera não vamos interferir na sexualidade de suas crianças, até porquê eu cresci no meio de heterossexuais e hoje sou essa bicha que vos escreve. Faz algum sentido? E não me venham dizer que é demais para a cabeça de uma criança entender que dois homens ou duas mulheres são um casal. Pro inferno com essa ideia! Vocês implantam a ditadura do rosa e azul na cabeça de seus filhos, fazem piadas de cunho preconceituoso na frente deles e querem que eu engula essa? Depois a gente que é gayzista (termo usado por gente que nem mesmo deve saber o que foi o nazismo, para fazer tamanha comparação).

Chega né? Quantas transsexuais são mortas e a grande massa nem fica sabendo? Quantos meninos, meninas, homens e mulheres são estuprados, violentados e também mortos e no dia seguinte a gente só lamenta o preconceito? Nós viramos números, seus babacas! Somos estatísticas, gráficos e a porra toda, menos humanos. Porque sim, parece que nos tiraram o direito de ser quem somos. Eu já ouvi tanto de que tem que ser discreto, ou respeitar pra ser respeitado. Tenho vontade de cuspir e cagar na cara de quem tem a coragem de expor uma ideia tão boçal e ignorante assim. O que separa a bicha afetada do machão fora do meio é a identidade de cada um. Pra que tanta hipocrisia? Já conheci tantos senhores casados e com família que adoravam dar uma escapada no moleque mais próximo. Engraçado né?

Se Marcelo quer ser chamado de Paula, não diz respeito a você! Se André quer apresentar Marcus como seu namorado no almoço de família, ele não fará isso longe das crianças! Se Bruna gosta de usar roupas masculinas e ainda assim ser Bruna, o foda-se é livre, viu?

Não tem problema ser gay e ser discreto. Não tem problema ser gay e ser afeminado. Não tem problema ser gay e gostar de futebol. Não tem problema ser gay pobre, gay rico, morador de favela, tipão da zona sul. Não tem problema ser gay na rua, dentro de casa, não tem problema ser gay do lado dos seus avós ou dos seus sobrinhos. Não tem problema ser bissexual. Não tem problema ser transsexual. Ou pelo menos não deveria ter.

Minha forma de me colocar não é nem a metade dos danos que essa sociedade preconceituosa faz com gente que se sente diferente só pela orientação sexual diferenciada. Vocês podam os sonhos de crianças, ensinam-as sobre religiões que deveriam falar de amor e disseminam o ódio e a intolerância. Vocês chamam de viadinho, bicha, sapatão, filho da puta, desgraçado e arrombado sem notar que certamente alguém da sua família está ouvindo e sentindo-se ofendido. Vocês falam que o preconceito está na nossa cabeça quando na verdade ele continua sendo passado hereditariamente como uma doença. E é crônica."

- Rafael Amorim

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Experimente me amar

"Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor, mas permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria. Me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso - eu odeio qualquer forma de preconceito -, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre, que eu também gosto de ser contrariado. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). 

Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês, mas me faça um louco bom, um louco que ache graça em tudo que rime com louco: lobo, bobo, rouco. Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua família. Isso a gente vê depois… Se calhar. Quero ver você nervoso, inquieto. Tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos. Me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. 

Me rapte! Se nada disso funcionar… Experimente me amar!"

- Martha Medeiros

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A revolução será travesti

"MEU MANIFESTO PELA IGUALDADE: SOBRE SER TRAVESTI E TER SIDO APROVADA EM UMA UNIVERSIDADE FEDERAL.


Hoje, eu tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por eu ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco. O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico. 

Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa , aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi levado a sério como algo que eu, enquanto um ser humano, preciso daquilo para me construir e ter minha subjetividade. 

Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz não ter demanda para meu nome social. 

Eu existo! Nós existimos! 

As violências por conta de minha identidade sempre trouxeram retaliações em salas, corredores e banheiros durante toda minha permanência na escola. Lembro-me de, inúmeras vezes, minhas amigas entrando em rodas feitas por rapazes para me bater e tentarem me salvar. ‘’Para com isso! Deixa ela!’’

Não era só comigo, mas fui a única que aguentei. Vi, de pouco em pouco, outras possíveis travestis e transexuais desaparecendo daquele ambiente, porque ele nunca simbolizou um espaço de acolhimento, educação e aprendizagem. Mas sim de opressão, dor e rejeição. 

Uma vez encontrei na rua com uma das que estudou comigo. Eu voltava do curso, ela ia se prostituir. ‘’Mulher, o que tu ainda faz em lugares desse?’’, ela me perguntou. Indignada, aliás. Ela me questionava com a testa franzida porque eu insistia em permanecer em um lugar que, cada vez mais, desmarcava que eu não era bem-vinda. Quando fui? 

Os banheiros femininos estão com as portas fechadas, o nome nas cadernetas não pode ser alterado e os olhares de escárnio estão por todas as partes. De corredor à sala, de banheiro à secretaria. 

‘’O que ela faz aqui?’’, se perguntam diariamente ao me ver andando na luz do dia. Afinal, eu, enquanto travesti, devo ser uma figura noturna. Assim, sedimentando a posição que a sociedade me atribuiu: de sub-humana. E quando falo isso, meus queridos, estou sendo o mais honesta que posso.
Olhe ao seu redor! Quantas travestis e mulheres trans você se depara no seu dia a dia? Quantas estão na sua sala de aula? Quantas te atendem no supermercado? Quantas são suas médicas?

Espere até as 23hrs. Procure a avenida mais próxima. As encontrará. Porque lá, embaixo do poste clareando a rua escura, é onde nós fomos condicionadas a estar por uma sociedade internalizadamente transfóbica.

Quando vi minha aprovação, foi uma alegria por eu ter tido uma conquista, mas para além disso, eu tive a consciência de forma imediata, que dentro de minhas perspectivas de vida, ver uma pessoa como eu em um espaço acadêmico é algo utópico. Até quando será? Até quando minhas irmãs irão ter que ser submetidas a essas condições de vida?

Sem moradia, sem estudo, sem trabalho. Se prostituindo por 20 reais.

Onde está a dignidade?

Não somos iguais. Eu, travesti, não sou igual a você. Eu, travesti, além de ter batalhado por minha entrada, a partir de agora irei batalhar por minha permanência.

Optei por Pedagogia com a esperança de poder ser um diferencial. De finalmente pautar a busca por uma educação que nos liberta e não mais nos acorrente. 

A escolha é apenas uma: lutar ou lutar. E eu, Maria Clara Araújo, escolhi ser um símbolo de força. 

A revolução será travesti!"

- Maria Clara Araújo