sábado, 3 de dezembro de 2016

A Tréplica

"Era 21 de dezembro de 2012. Sexta-feira. Dia em que o mundo iria acabar. Você trabalhava das 14h às 22h. Enquanto eu trabalhava das 08h às 17h Passamos o dia inteiro trocando mensagens. Em alguns momentos eu notei um certo distanciamento da tua parte. Mensagens secas. Eu questionei e você disse que não estava muito bem. Mal estar. Talvez gripe ou virose. Eu pedi pra cuidar de você, mas você respondeu que queria e precisava descansar. Que depois do trabalho você iria pra casa dormir e que nos veríamos no dia seguinte. Em sete meses de namoro nós nunca havíamos ficado longe um do outro numa sexta-feira. Fiquei preocupado com você. Lembrei do dia em que eu estava com febre de 40 graus e ainda assim fui te encontrar. Até melhorei quando te vi. Mas você foi enfático. Queria descansar. Sozinho. Às 22h você foi pra casa. E eu já estava na minha. De banho tomado. Deitado na cama. Esperando por notícias suas. Você me mandou a seguinte mensagem: "Amor, tô muito cansado e indisposto, vou dormir. Nos falamos amanhã, te amo." Eu tinha a impressão de que era capaz de dar a minha vida pela tua. Saber que você não estava bem me fazia mal. Eu tomava as suas dores. E me preocupava com você, mais do que comigo mesmo. Falta de amor próprio da minha parte? Excesso de amor por você? Não sei. Mas eu gostava de me sentir assim. Gostava de te amar.

23h. Minha melhor amiga me ligou:
- "Rafa, tudo bem?”.
- "Tudo bem" Respondi.
- “Você e o Nando estão bem”? Ela perguntou num tom aflito.
- "O Nando está em casa dormindo, está com virose.”.
Comecei a achar aquela ligação muito estranha.
- "Camila, está acontecendo alguma coisa?”.
Perguntei desconfiadíssimo. Embora sejamos melhores amigos, a Camila poucas vezes me ligou, geralmente conversamos por mensagens.
- "Rafa, estou vendo o Nando na fila da balada. E ele está acompanhado de mais três amigos.”.

Senti um frio na barriga. Meu corpo ficou mole. Me senti trêmulo. E emudeci por alguns segundos.
Fiquei em silêncio até retomar o fôlego.
- "Camila, você deve estar confundindo, não deve ser ele.”.
- "Rafa, eu tenho certeza que é ele." Ela respondeu num tom cuidadoso, dava pra sentir a pena que ela já estava sentindo de mim.
- "Ele já te viu?" Perguntei.
- "Ainda não me viu, mas pensei em ir falar com ele".
- "Não!" Eu gritei e continuei:
- "Não deixa ele te ver, eu vou até aí pra verificar o que está acontecendo.

Peguei o endereço e comecei a me arrumar. Eu queria acreditar que tudo era um grande engano. Ou talvez uma surpresa do Nando pra mim. Será que ele vai me pedir em casamento? Será que é uma festa surpresa que eles prepararam pra mim? Cheguei até a soltar alguns risinhos, de nervoso. É uma surpresa. Deve ser. Tem que ser. Pobre de mim. Quanta ingenuidade. Fui dirigindo até a balada num misto de desespero e agonia. Tensão. Quando cheguei na frente da balada já não existia mais fila. A Camila estava lá na frente me esperando. Amigo, fica calmo", disse ela desesperada. "Camila, isso é algum tipo de brincadeira?", perguntei aflito. “Não é”. Mas fica calmo que não deve ser nada demais. NADA DEMAIS? Meu namorado estava dentro de uma balada enquanto me disse que estava doente, dormindo, em casa. Entramos na balada.

Fomos logo procurá-lo. Balada cheia. Almas vazias. Procurei. Procurei. Procurei. Até encontrar. Você estava beijando um cara. Fiquei em estado de choque. Uma dor no peito tão forte que até hoje não sei descrever. Gelou tudo dentro de mim. Um frio na espinha assustador. Meus olhos encheram de lágrima. E desaguaram. Fiquei estático. Assisti de camarote aquele beijo. Reconheci o garoto. Era aquele seu colega de trabalho que curtia as suas fotos no facebook. E que quando eu sentia ciúmes você dizia: “Ele é só um colega de trabalho qualquer”. Assisti aquele beijo até o fim. Quando vocês interromperam o beijo você estava sorrindo. Feliz. Gargalhando. Olhou pro lado e nossos olhos se encontraram. Você congelou me olhando. Parecia uma cena de encerramento de "avenida brasil". Você também ficou estático. O sorriso do teu rosto foi desparecendo lentamente. Você nunca imaginou que eu fosse aparecer ali. Olhei dentro dos teus olhos. E tentei te mostrar toda a minha dor.

Os meus olhos falaram por mim. Telepatia. Eu sentia meu coração sangrar. A maior decepção da minha vida. Acontecendo ali. Na minha frente. Virei às costas e fui embora. Desabei em choro. A Camila tentou vir atrás de mim, mas eu corri. Peguei meu carro e voltei pra casa. Não sei como cheguei. Só lembro de ter desaguado todas as lágrimas que existiam dentro de mim. Chorei tanto em cima da minha cama. Chorei até apagar.

21 de dezembro. O mundo acabando dentro de mim. Acordei no dia seguinte com a sua imagem beijando outro cara. Me senti acordando em cima de uma maca de hospital. Atropelado. Entre a vida e a morte. Esperei encontrar algumas mensagens ou ligações suas no meu celular. Mas não havia. A Camila me mandou infinitas mensagens, preocupada comigo. Coitadinha. Minha amiga fiel foi tão corajosa em me contar. Os dias que se procederam foram de uma grande espera. Por um pedido de desculpas. Por uma explicação. Por uma justificativa. E o dias se tornaram semanas. As semanas se tornaram meses. Os meses se tornaram anos. E a justificativa nunca veio. O pedido de desculpas também não. Até você me reencontrar.



Acompanhado. Namorando. Na mesma balada que você me traiu. Só que agora sem choro. Sem tristeza. Sem decepção. Feliz. Encontrei um cara legal, que cuidou de mim no ápice da minha fragilidade. Encontrei alguém que me ama por inteiro. Que não finge. Que não se acha melhor nem pior. Se vê igual. Nos vemos como iguais. Você pediu desculpas. E pediu pra voltar. Quase três anos depois. Sim, antes tarde do que nunca. Justificou a traição. Disse que se sentia inferior a mim. Sendo que eu sempre te coloquei pra cima. Eu fazia você se sentir o cara mais incrível do mundo. Você mesmo me dizia isso. Se de fato esse foi o motivo pra você ter me traído: Então você realmente era inferior.

Inferior ao amor que eu sentia. Inferior aos meus sentimentos. Inferior aos meus planos de casar e viver contigo pra sempre. Inferior às promessas que você me fez. Inferior a todo o meu sofrimento. Inferior à força e coragem que eu tinha de enfrentar o mundo inteiro e passar por cima de todo e qualquer preconceito. Inferior. Mas quem sou eu pra te julgar? Tá desculpado. Segue em frente e seja feliz. Viva de verdade. Encontre um amor. Aquele amor de verdade que um dia eu te dei. O meu perdão você tem. Mas o meu amor não tem mais.

Adeus."

- Rafael Koerich

A resposta

"Oi, Rafa!

Se ex é aquele que antecede, sou seu ex então. Não sei escrever tão bem quanto você, mas vou tentar. Talvez por isso que eu só tenha te escrito uma carta em 2012. Enquanto você me mandou pelo menos dez. Tenho todas ainda. Teu e-mail foi uma porrada na minha cara. Nocaute. Eu sabia que tinha te machucado, mas não sabia a gravidade. Vi que você postou o e-mail nas redes sociais. Bombou. Obrigado por não ter divulgado o meu nome. Seria uma boa vingança. Tava na padaria tomando um café e vi um casal falando sobre o e-mail. Abri o Facebook e vi alguns amigos compartilhando o texto. Será que sabiam que você estava falando de mim? Não sei. Quase 3 anos se passaram.

Eu não sou mais aquele que fugiu sem prestar socorro. Você não é mais aquele que foi destruído. Amadurecemos. Algumas coisas precisam ser levadas em consideração. Eu tinha acabado de "me assumir" gay. Você foi o meu primeiro namorado. Era tudo muito novo pra mim. Caí em tentação. Eva também caiu. Cauã Reymond, Kristen Stewart, Brad Pit. Maria, Pedro, José, Ana. Nada justifica, eu sei. Mas somos humanos e estamos sujeitos. "Errar é humano". Já ouviu falar? Você tão inteligente. Já formado. Com um emprego incrível. Mil projetos engatilhados. Cheio de amigos legais. Um cara tão forte. Promissor. E eu? O que eu era naquela época? Um estudante. Com um emprego ruim. Trabalhava pra pagar os estudos. Poucos amigos. Incrivelmente seguro, eu? Toda a minha segurança era simulada. Sempre me senti inferior a você. O que esse cara está fazendo ao meu lado? Eu pensava. Você inflava meu ego com tanto amor. Você me chamava de "incrível", "inteligente", de "especial". Embora eu me considerasse um grande nada. O que esse cara tem na cabeça? O que ele está vendo em mim? Alguém avisa pra ele que eu não sou tudo isso?



Você criou expectativas demais em cima de mim. Eu nunca fui tão bom quanto você pensava. Ok. Você fazia eu me sentir incrível. Você fazia eu me sentir inteligente. Você fazia eu me sentir especial. Mas aí tive que fingir ser tudo isso. Fingi pra que você continuasse achando. E pra que pudéssemos ficar juntos. Pra sempre, talvez. Fingi. Até cansar de fingir. E fui embora. Eu sempre achei que você ficaria bem caso eu partisse. Ele vai conhecer alguém melhor do que eu em questão de dias. Nunca pensei que poderia te causar tanta dor (mesmo). Tudo bem, eu poderia apenas ter terminado. Mas eu te traí. E você descobriu. Ou eu poderia nem ter terminado e ter tido uma história feliz ao teu lado. Mas a minha síndrome de inferioridade não permitiu. Eu lembro que fiquei paralisado quando você me pegou no flagra. Eu não consegui ir atrás de você pra te pedir desculpas. O teu silêncio e o teu olhar berraram tão alto que eu fiquei imóvel. O teu olhar naquela noite, lembro até hoje. Foi como se você tivesse me dito tudo o que gostaria de dizer.

Apenas com o olhar. Telepatia. Eu entendi ali que tudo tinha acabado. E pensei: "Ele vai ficar bem". Você pode achar que eu não sofri. Mas eu sofri, sim. Chorei no meu quarto por ter sido tão babaca contigo. Você não merecia passar por isso. Logo você que sempre me deu tanto amor. E motivos pra sorrir. Voltei a viver. Achava que você logo ficaria bem. Que você encontraria alguém a sua altura. Conheci outro cara. Comecei a namorar. E olha a vida sendo vida: fui traído. Peguei mensagens no celular dele. E foi um soco no estômago. Sofri bastante. Quem bate, esquece, quem apanha, não. Me joguei na balada e peguei geral. Numa dessas noites me disseram que você estava por lá. Fiquei com um cara e parece que você viu. Eu jamais imaginei que você ainda se importasse comigo. "Esse cara não deve nem querer saber que eu existo." "Deve ter vergonha de ter namorado comigo." Ou simplesmente não pensei nada. Eu estava vivendo a minha vida ao estilo "deixa a vida me levar". Eu parei de medir os meus atos e sem freio fui seguindo.

Um dia sozinho no meu quarto eu comecei a ler as cartas que você me enviou quando namorávamos. E bateu uma saudade muito grande. Saudade de ser amado. Amado de verdade. Liguei pra você pra perguntar sobre o meu óculos. Que na verdade sempre esteve comigo. Foi só um pretexto pra ouvir tua voz. Um pretexto pra dizer que estava com saudades. Um pretexto pra pedir desculpas. Um pretexto pra dizer: "volta pra mim". Mas quando eu ouvi a sua voz eu travei. Não consegui dizer nada. E desliguei. E voltei a namorar. Sem muito critério. As coisas já não eram mais novidade pra mim. Eu só queria encontrar alguém, começar a namorar e recomeçar a minha vida. Novamente levei um tapa na cara da vida. O cara que eu comecei a namorar veio com um papo de "diferenças culturais". Disse que era bom demais pra mim. E me deu um grande pé-na-bunda. Doeu. Lembrei de nós dois. Das nossas diferenças. E do amor que você tinha por mim, ainda assim. Você gostava de mim assim, do jeito que eu sou. Senti saudades.

Fui pra balada e te reencontrei por lá. Acompanhado. Namorando. Você estava tão lindo. Você estava tão vivo. E eu já estava destruído. Com o coração destruído. E eu te procurei. E pedi pra voltar. Levei quase três anos pra te pedir desculpas. Antes tarde do que nunca. Não é mesmo? E recebi o seu e-mail com aquela resposta. Que me fez entender toda a situação. Às vezes a gente não tem ideia do poder dos nossos atos. Às vezes o amor fere, mas às vezes ele cura. Eu poderia simplesmente ignorar o seu e-mail. Poderia ficar bem e ser feliz. Poderia aproveitar ao máximo. Com verdade. Uma vida de verdade. Um amor de verdade. Pra não ter uma vida vazia. Mas me dei conta que quero viver com você esse amor de verdade. Essa vida de verdade. Vazia a minha vida já está. E só você pode preencher. Pode parecer pretensão da minha parte. Mas se você escreveu aquele e-mail com tanto sentimento e com tanta verdade. É porque ainda sente. Ainda ama. E se esse for o caso, eu vou estar aqui te esperando. Pra gente recomeçar. Recomeçar do zero. Pra mostrar que tudo na vida tem um tempo certo. E talvez o nosso tempo seja agora.

Um beijo.

Te amo."

Querido ex

"Oi!

Sou seu ex. Na verdade você é meu ex. Ex é aquele que antecede. Sou o seu ex, do ex, do ex, do ex. Se é que isso realmente existe. Depois de mim você namorou três ou quatro vezes, acompanhei tudo secretamente pelas redes sociais. Começamos a namorar em 2012 e terminamos no mesmo ano. 2012 foi um ano maluco, não é mesmo? O mundo iria acabar. E não acabou. Nosso namoro, esse sim, acabou. Eu cheguei a pensar que a minha vida também fosse acabar, mas veja só: 2015 chegou e eu ainda estou aqui. Profecias erradas. Namoramos poucos meses. Você me fez tão feliz. Nunca havia me apaixonado tanto. Eu dormia sorrindo e acordava com um sorriso ainda maior. Você era o meu primeiro e meu último pensamento do dia. O nosso primeiro beijo arrepiou a minha alma e você perdeu o fôlego, lembra? Você tão incrivelmente lindo. Você tão incrivelmente seguro. Você. Só você.

Mas aí você me traiu. Me traiu com um colega de trabalho. Me traiu com um colega de trabalho qualquer. E me destruiu. E foi embora. Partiu sem se importar. Frio. Calculista. "Homem foge sem prestar socorro." Manchete no jornal da vida. Da minha vida. Que já não tinha mais sentido. Eu eu fiquei em estado de choque. E comecei a fumar. E bebia pra não lembrar. E fumava pra tentar me acalmar. E bebia porque eu lembrava. E fumava porque não esquecia. E bebia porque não me acalmava. E fumava cada vez mais. E bebia pra tentar esquecer. E não esquecia. E não me acalmava. Então comecei a sair. Meus amigos me arrastaram pra balada. E eu te reencontrei por lá. E você estava tão feliz. E você estava tão lindo. E eu só queria te abraçar e dizer: "tudo bem eu te perdoo, errar é humano, vem aqui, vamos tentar outra vez."

Mas você abraçou outro cara. E beijou esse cara. NA-MINHA-FRENTE. E me destruiu novamente. E eu bebi e fumei ainda mais. Porque me traiu com o seu colega de trabalho se não tinha intenção de ficar com ele? Me traiu só por trair? Quem é esse cara que você está beijando? Eu tinha tantas perguntas pra te fazer. Eu tinha tanta dor dentro de mim. Eu estava tão frágil. E passei a ter raiva. E um dia você me ligou. Eu ouvi a sua voz. E a raiva passou. Mas você só perguntou pelo seu óculos. Que não estava comigo. E desligou. E começou a namorar com outro cara. Que não era o colega de trabalho, nem o cara da balada. E você estava tão vivo. E encheu o instagram de fotos. E legendou as fotos com palavras de amor. E terminou o namoro. E encheu o instagram com fotos na balada. E começou a namorar com uma outra pessoa. E o ciclo era sempre o mesmo. E eu fui murchando aos poucos. Fui morrendo lentamente. Tive que focar no trabalho. Pra não morrer por inteiro. E trabalhei muito. E fui promovido. Uma. Duas. Três vezes. E só trabalhava. E te acompanhava de longe. Acho que gosto de sentir dor. SADOMASOQUISMO.

E dispensei tanta gente que queria ficar comigo. Tanta gente legal. Vesti um escudo. Achei que todas as pessoas eram igualmente maldosas. Maldoso como você foi. Comigo. E com o cara depois de mim. E com o outro cara, depois do cara depois de mim. E vi algumas pessoas querendo cuidar de mim. Teve um que chorou e disse que queria me fazer feliz, pediu permissão. E eu disse não. E de tanto dizer não. Acabei dizendo sim. E eu já não fumava mais. E eu bebi, mas dessa vez foi pra brindar. E eu me senti amado. De verdade. Pela primeira vez. E me senti feliz. E me peguei sorrindo sozinho. Sorriso bobo. E voltei a amar. E não era você. Verdade. Reciprocidade. E você foi acabando dentro de mim. Até acabar por inteiro. E eu passei a dar risada sobre tudo o que aconteceu. As pessoas me diziam que um dia eu iria rir disso tudo. E eu ri.



E eu te reencontrei na balada. E não senti nada. Olhei pro meu namorado e vi um abismo entre você e ele. Eu só desejei que a tua maldade e que a maldade do mundo nunca atinja quem agora eu amo. E que ele nunca se corrompa por tão pouco. Como você se corrompeu. Que o mundo é sujo eu sei. Você me mostrou. Mas é possível sair ileso, basta ser bom. Basta ser do bem, meu bem. E você me viu feliz com outro alguém. E me mandou mensagem. Disse que eu estou bonito. Que o tempo me fez bem. E fez mesmo. E você pediu pra voltar. Disse que se arrependeu de tudo e que sente muito a minha falta. Disse que eu fui o único que realmente te amou de verdade. Há 1 ano atrás eu correria pros teus braços. E te dava todo o meu amor outra vez.

Hoje eu te deixo esse e-mail. Que é a única coisa que eu tenho pra te oferecer. Fica bem e seja feliz. A gente só vive uma vez. Aproveita ao máximo. Aproveita com verdade. Uma vida de verdade. Um amor de verdade. Pra não ter uma vida vazia. Tchau."

- Rafael Koerich

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ninguém é obrigado a gostar de você

"É isso mesmo. As pessoas têm zero obrigação de gostar da gente, muito menos de querer a gente por perto. A gente tem muita dificuldade em lidar com a rejeição, né? E tá piorando. Acho que começa na infância… quando algum colega briga com a gente ou não deixa a gente andar junto ou qualquer coisa do tipo, a tendência dos nossos pais é dizer que aquela pessoa é boba, que ela não merece nossa amizade, que ela é chata ou qualquer outra variação de adjetivo que exclua a verdade: ela simplesmente não gosta de você. As pessoas podem ser boas, divertidas, legais e inteligentes e têm todo o direito de simplesmente não quererem você por perto. Tá tudo bem, você não precisa agradar todo mundo, mas de alguma forma isso é um tabu na infância e as pessoas crescem buscando aceitação e se frustrando com a rejeição.

As redes sociais pioraram tudo. Até aplicativo pra descobrir quem parou de seguir você existe. É uma obsessão por ser aprovado desde de sempre e a tecnologia veio só deixar isso ainda pior. Se a pessoa leu e não quis te responder? Sim, a internet também mostra! As pessoas podem até estarem loucas para acabar um relacionamento, mas se o outro toma a atitude primeiro, o ego ferido de não ser mais desejado fala tão alto que a pessoa até se confunde achando que agora até quer o outro de novo. Isso complica nossa vida, isso complica nossos relacionamentos e isso leva milhares de pessoas a consultórios. As pessoas tomam remédio pra lidar com a dor do não-ser-querido.



Simplifiquemos. Ninguém é obrigado a querer ninguém. E quem quer não é obrigado a sempre querer. Tá tudo bem… Quem já ouviu um “eu não gosto mais de você” sabe que não é a frase mais agradável do mundo, eu já ouvi uns anos atrás, mas foi depois dessa frase que eu parei minhas tentativas de dar certo com a pessoa que me disse essas palavras. Enquanto eu desconfiava que o relacionamento não ia bem por outras razões, tomei algumas providências, mas foi num almoço que ele olhou pra mim e disse que achava que não me queria mais porque não gostava mais de mim. Diante disso, tudo clareou, não tinha mais nada a ser feito. Eu não podia pedir pra ele gostar de mim de novo… isso não se pede. Ele gostou, não gostava mais, cabia a mim pagar meu risoto de camarão e ir pra casa lidar com esse fato.

Alguém não gostar de você não faz de você uma pessoa pior e quem não gosta de você também não é uma pessoa ruim por isso. Gostar tem que ser genuíno, tem que vir naturalmente, tem que ser leve, tem que ser suave. Gostar de alguém e esse alguém gostar de você é tão bonito, não vamos deixar isso feio e pesado transformando em obrigação. Reciprocidade é loteria! Aproveite enquanto ela existe, pode ser que acabe amanhã, pode ser que dure pra sempre, mas a gente não sabe…. então aproveite o bem-me-quer enquanto está no auge, quando vira mal-me-quer não há nada a ser feito. Isso vale pra namorados(as), amigos e até familiares, ninguém é obrigado a gostar de ninguém.

Não deixe que a reprovação de uma pessoa abale o que você pensa sobre si mesmo, não tente ser o que o outro quer, não sofra mais que o necessário. Você é incrível em todas as suas maneiras, mesmo que nem todo mundo que você quer, veja isso. Não diminua o tamanho de uma pessoa porque ela não te aprova, cada ser humano é singular e nenhum escolhe pelo quê o por quem seu coração se alegra, respeite a programação natural de cada pessoa e quando gostar de alguém que também gosta de você, agradeça."

- Hariana Meinke

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Me deixa quietinho?

"Hoje eu quero ficar quietinho. Sei lá, me deixa no meu quarto, na minha casa, no meu mundo, no meu interminável fim de segunda-feira. Não me pergunte se aconteceu algo, se eu gostaria de sair ou se já terminei de ver aquela série. Eu sei, parece estranho. E é. Mas depois eu te explico.

Eles não sabem, mas não é porque repentinamente quero ficar em silêncio que eu esteja chateado com algo. Muito menos queira me pendurar no parapeito do prédio. Juro. Acontece que o silêncio é a minha música nos dias tempestivos. É um tempo precioso que uso para organizar o que a rotina e as pequenas tristezas desorganizam dentro de mim.

Eu tenho o meu tempo, meus costumes, meu ritmo. Gosto de acordar devagar e pensar nas possibilidades do dia ainda na cama, por isso demoro para levantar. Gosto de ficar em silêncio sem motivos explicáveis, preciso me livrar dos excessos que acumulo durante o dia. Gosto de ficar sozinho e conversar comigo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ah, e detesto trabalhar com alguém atrás de mim! Ver alguém me observando pelo reflexo do computador, então? Torturante.



Quando alguém me pergunta, na maioria das vezes pessoas presas num tédio sem fim, o que eu faria se tivesse somente mais uma semana de vida, eu respondo, sem hesitar e sem dúvidas: ficaria na minha casa. Não sei, mas, para mim, chegar na minha casa e abraçar o silêncio que ali se faz é um presente especial. Se um dia eu for apaixonado por alguém como sou pela minha casa, será um caso de eternidade. Eu gosto dos meus abajures, que, convenhamos, criam todo o charme-luz de uma casa. Eu gosto da minha cama que ainda faz barulho do ranger da madeira enquanto me mexo, do meu cachorro que late por qualquer coisa e eu sempre acho que são espíritos, dos meus talheres que comprei no R$ 1,99 e se desencaixam enquanto estou comendo, da minha televisão de tubo que tenho na cozinha… é tudo tão meu.

Às vezes acho que eu gosto da solidão e do silêncio mais do que deveria. E aí me bate aquele medo gigantesco de nunca mais conseguir dividir esses meus momentos de silêncio com mais ninguém. Pois esse momento é tão meu, mas tão meu, que dividir ele com alguém me assusta… e aí convivo com aquele eterno conflito interno de amar loucamente a solidão, mas morrer de medo de morrer sozinho.

Ficar em silêncio não é somente se desvencilhar das palavras, mas uma metáfora para a solidão. Ficar em silêncio é ficar sozinho ouvindo uma música, é abrir a janela com intuito de ouvir os carros passarem, fazer uma janta gostosa na companhia única das nossas mãos desastradas, caminhar no parque, surfar, dizer um te amo num profundo diálogo com o teto, pois não temos mais tempo de dizer diretamente para a pessoa… O silêncio é sempre uma conversa com a nossa parte mais madura.

Mesmo ouvindo com frequência que sou estranho ao optar pelo silêncio sem aviso prévio, eu gosto dos meus momentos de quietude, das minhas manias de solidão e da alegria que sinto quando tenho alguns minutos de paz durante o dia. Espero que um dia alguém também goste, caso contrário, haja diálogos com o teto do meu quarto… Sim, diálogos, o meu teto me responde, o seu, não?"

- Frederico Elboni

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Esse texto é para ti

"Esse texto é para ti que ao decorrer do tempo aturou as minhas crises, que entendeu os meus erros e me perdoou várias vezes, mesmo não merecendo. Que esteve ao meu lado nas alegrias e nas tristezas, que bebeu, cantou e comemorou na minha companhia. Esse texto é totalmente dedicado para ti que me ouviste horas e horas ao telefone, que mandastes sms e sempre apoiastes as minhas escolhas apesar de saberes que eu, em algum dado momento, iria sofrer com as consequências.

Esse texto é para ti, que me abraçastes. Abraçastes com força, que me acolhestes nos braços como uma mãe faria com o filho. Que dormiste ao meu lado, e cuidaste de mim quando pensei estar sozinho neste mundo. É para ti, que me consideras um irmão, que matarias e morrerias para ajudar-me.



Esse texto é para vocês, meus amigos! Vocês que me mostraram que cada peculiaridade nos torna um todo. Que me mostraram que nós podemos não ser a melhor pessoa do mundo, mas que juntos podemos ser. Este texto é para vocês que saberem que pode passar o tempo, as pessoas, os momentos, mas que nada nem ninguém poderá apagar as histórias que hoje estão gravadas em mim.

Estes momentos, apesar de tolos ou engraçados, sempre estarão comigo, a guiar-me a dar-me a certeza de que apesar de o mundo estar abarrotado de pessoas com mau caráter, as pessoas boas também existem e eu sempre encontrarei alguém com quem poderei contar. Alguém como vocês, não iguais, mas suficientemente bons para me dar coragem de seguir em frente.

Obrigado pelas risadas! Danças, confissões. Muito obrigado por fazeres parte da minha vida e principalmente minha história."

- Devaneios Implícitos

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Aprende a fazer falta

"Principalmente para quem sabe onde te encontrar.

Ontem, conversando com uma amiga pelo WhatsApp, ela me contando sobre o fim de um relacionamento, me disse: “Vou sumir. Fazer ele sentir falta”. E concordei, pois embora essa seja uma artimanha arriscada, é uma das únicas que pode dar certo.

De vez em quando o único remédio é sair de cena para o show continuar. Aprender a ser ausência quando tudo já foi dito, cobrado, explicado. Deixar de ser insistência para ser abstinência. Controlar os próprios impulsos pode parecer simples, mas é uma das coisas mais difíceis de se conseguir. Tanta alegria dando sopa lá fora e a gente teimando em se fixar na pessoa que foi embora.

É preciso entender que enquanto você insiste em checar os horários em que o outro “visualizou por último” no WhatsApp, muita vida está acontecendo e sendo deixada pra trás. É claro que no início vai ser mais difícil - não é de uma hora pra outra que o coração entende as mudanças de planos e estações - mas aos poucos, bem aos poucos, a gente aprende a fazer falta.

Suma do mapa de quem sabe onde lhe encontrar e até o momento não se importou; pra quem teve todos os seus sorrisos e nunca valorizou.

Saia de cena de quem você ouviu inúmeros “nãos” e nunca acreditou; de quem pouco se relacionou e muito se cansou. Do afeto pequeno que tanto lhe recusou e você sempre aceitou.

Suma do mapa de quem vive com dúvidas e nunca lhe teve como certeza; de quem não aprendeu a remar junto e agir com gentileza.

Aprenda a fazer falta para quem já se habituou à sua presença e desaprendeu a sorrir quando você aproxima. Pra quem se esqueceu como é boa a sua companhia e prefere se refugiar numa vida fria.

Fazer falta é segurar o impulso de procurar, vasculhar, perguntar. É frear a vontade de entender o que não dá mais para explicar ou de justificar o que não merece absolvição.



Fazer falta é não ligar, não mandar mensagens, não digitar o tal endereço na barra de contatos do email. É sair para se distrair com os amigos, dar uma corrida no parque, respirar fundo e encontrar sentido na solidão. É orar para o pensamento acalmar, não bisbilhotar o perfil da pessoa no Facebook, deixar de postar as próprias fotos com a intenção de ser visto à distância. É desistir de parecer bem quando não está bem, é cortar o cabelo para renovar o espírito, é ficar bem longe do celular enquanto toma um copo de cerveja ou uma taça de vinho. É, acima de tudo, agir com esquecimento para quem sempre pareceu esquecer você.

Torço para que minha amiga consiga sumir. Para que, sumindo, ela descubra se realmente faz falta. Para que, sumindo, ela descubra o quanto sua presença é importante ou não. Sumir é uma estratégia arriscada, eu sei. Mas também define muita coisa mal resolvida. Também traz as respostas que buscamos e nem sempre encontramos.

Nem sempre as respostas serão aquelas desejadas, mas no fim nos libertam a prosseguir com mais certeza, clareza… e amor próprio."

- Fabíola Simões

domingo, 18 de setembro de 2016

Para o amor que vai chegar

"Eu já quis esquecer as histórias de amor que vivi. Eu me entreguei por inteiro em todas elas, e quando a gente se entrega por inteiro, quase não existe nada da gente para recolher quando algo acaba. Mas eu sou assim, só consigo amar se for para sempre. Nada de ir com cuidado, planejando o próximo passo; definitivamente, eu não tenho paciência para isso. Dane-se se isso assusta. Eu já penso em um casal de velhinho rindo à beça e me parece um bom momento. Você sabe como é ser assim?

Sabe como é acreditar que tudo vai ser pra sempre?



Mas não é. Nada é pra sempre. Encaro todas as minhas histórias de amor quando me olho no espelho pela manhã. E não é fácil. Não é fácil ouvir promessas, palavras doces, gestos lindos e ver sorrisos marcantes, mas no dia seguinte só resta uma lembrança que dorme na minha cama. E dorme roubando o meu cobertor. Sei que sou só mais um vivendo essa mesma história, mas uma coisa eu aprendi: não posso esquecer essas histórias, pois eu estive lá. Esquecer essas histórias também seria me esquecer. E não farei isso. 

P.S: Não me peça para ir com calma."

- Zack Magiezi

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Eu também existo quando você não está solitário ou com tesão

"– Sumido.
– Opa!
– Tá em casa?
– Onde vc tá?

Quando o celular apita e uma dessas mensagens chega, eu já sei de quem é e o que a pessoa quer. E a culpa é minha por elas insistirem em chegar. Eu deixei que elas chegassem, eu respondi muitas delas, eu achava que queria a mesma coisa.

Mas, nas últimas vezes, minha certeza foi diminuindo. “Quero mesmo?”, pensava quando via a mensagem. “O que eu estou fazendo?”, indagava enquanto estava dentro do táxi ou arrumando minha casa. E minha reação quando tudo acabava confirmava que eu não queria e que eu não sabia o que estava fazendo: eu simplesmente ia ouvir música ou ver televisão, ficava inquieto querendo ir embora ou expulsar a pessoa daqui. Por poucos minutos de prazer, esquecia quem eu era. E no fim, quando eu lembrava, já era tarde demais.



Sexo eu tenho daqui até a China e com pessoas que eu até acho muito gostosas, atraentes, e boas de cama. Alguém pra me dar a mão num filme de terror, não. Alguém que comprou um chocolate por ter lembrado que era meu favorito quando viu ele na fila do mercado, não. Alguém que queira saber de verdade como foi o meu dia, não. Alguém que saiba qual meu gosto em música, não. Alguém que queira conversar sobre reencarnação de madrugada bebendo vinho, não. Alguém que compartilhe e me faça compartilhar, não. Alguém que se arrisque ao me ver me arriscar, não. Alguém que me ouça e me dê palpites, não. Alguém que me ame por tudo que sou e não só por algumas partes de mim, não.

Talvez você não saiba, imagine, ou nem pense nisso, mas eu também existo quando você não está solitário ou com tesão."

- Gabriel KDT

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice

"Conheci ela no jazz. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém tocando Cole Porter num subsolo esfumaçado de Nova York. Mas o jazz em questão era aquela aula de dança que todas as garotas faziam nos anos 1990 –onde ouvia-se tudo menos jazz. Ela fazia jazz. Minha irmã fazia jazz. Eu não fazia jazz mas ia buscar minha irmã no jazz. Ela estava lá. Dançando. Nunca vou me esquecer: a música era "You Oughta Know", da Alanis.

Quando as meninas se jogavam no chão, ela ficava no alto. Quando iam pra ponta dos pés, ela caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ela que se lançava pro lado oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.



Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de risoto. Queimamos algumas panelas de comida porque a conversa tava boa. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois —acabei de contar. Sofremos com os haters, rimos com os shippers. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs. Aprendi o que era feminismo e também o que era cisgênero, gas lighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser casado com ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de "How I Met Your Mother". Mais que no começo de "Up". Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos —não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado num filme —e em tantos vídeos, músicas e crônicas. Não falta nada."

- Gregório Duvivier