quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pra terminar, mal começou

"Pra terminar, mal começou. Pra continuar, nem iniciou. Não se teve nem se quer um parágrafo, muito menos dois cúmplices. Não existiram vírgulas nem espaço. Foi muita tinta pra pouco papel. Esqueceram da arte preocupados com a cor do pincel.

Muitas intrigas, bastantes confusões. Tentavam continuar juntos, mas não existiam compreensões. Onde um amor que tinha tudo pra dar certo não transborda, porém derrama... A falta de segurança alarma desconfiança."

- Um nordestino disse; Luís Henrique

sábado, 25 de abril de 2015

Mas é passado, já ficou pra trás

Caro ex amor,

Você se foi, é verdade. Pensando bem, quem foi embora fui eu. Bom... Isso não é mais novidade para ninguém. O tempo se passou, reconstruímos nossos caminhos. Mas, desde então, eu não mais te escrevi. Você deve ter percebido, se acaso vasculhou minhas redes sociais. A verdade é que você já não faz mais parte dos meus rascunhos. Não há mais seu nome ou sua imagem em minha mente. Tudo passou. O que ficou foi um breve flash das lembranças. Mas ando tão ocupado comigo, meu bem, que te esqueço nos lugares em que vou. Você sabe, sempre fui desajeitado. Vivia esquecendo alguma coisa no carro, na sua casa, nos lugares em que íamos. Acredito que em algum desses lugares eu deixei você. 

E só torno a lembrar quando algo forte te traz à tona para minha vida. E isso já não mais acontece. Preciso te dizer que estou feliz. Entre algumas de minhas andanças, descobri que o amor pode ser diferente do que o que tínhamos. Descobri o amor em outras maneiras. Em outros corpos, em outros gostos. A começar por mim. Conheci o amor que tinha por mim, e que, no fundo, sempre insistiu em ser grande, mas você ocupava muito espaço aqui dentro, e quase não deixava lugar para mais nada. E não, não se culpe, a culpa não foi sua. Pelo contrário, foi inteiramente minha. 

Antes de terminar, gostaria de dizer que estou ouvindo aquela música que um dia foi nossa. E é engraçado, porque ela não me traz más lembranças. Ela não mais se encaixa na história de nós dois. Parei com aquela mania de associar músicas à pessoas, e a música que um dia foi nossa, hoje faz trilha sonora de outra história, que já não te tem como personagem principal. Custei a acreditar, mas tudo acabou. De nós dois não restou nada, só as lembranças e os antigos textos que te escrevi. De você já não guardo mais nada, e eu sinto muito, mas eu preciso te dizer: agora é tarde demais para você se arrepender.

- Débora Laís

quinta-feira, 12 de março de 2015

Sobre um casal ser expulso por demonstração de amor

"Bom dia, pessoal!

Este é um pedido oficial de desculpas. A todos aqueles que acreditam que o amor é que nem sorvete: tem de todos os tipos, todos os gostos e de todas as cores.

Ontem a intolerância falou mais alto na nossa lojinha tão amorosa e querida. Infelizmente.

Um cliente e seu namorado foram expulsos de nosso estabelecimento devido a atitude isolada e sem autorização superior de um de nossos funcionários que havia recebido uma reclamação de outro casal, dizendo que os dois meninos estavam "desrespeitando o ambiente familiar da loja".

Não há outra ação esperada da Me Gusta senão um pedido de perdão.

Estamos profundamente tristes e perplexos com o ocorrido. Queremos nos retratar publicamente com o casal. Por eles terem passado pela degradante situação de se sentirem errados, quando não fizeram nada mais que demonstrar o sentimento que sentem um pelo outro. Sentimento lindo esse, diga-se de passagem.

A culpa não é exclusiva do funcionário. Não é também só do outro casal que se sentiu incomodado. A culpa é da Me Gusta.

Trabalhamos com pessoas. Não só com picolés! Devemos saber da conduta das pessoas que empregamos em nosso estabelecimento. Devemos orientar e situar nossos funcionários no século XXI. Devemos investir em debate e treinamento pessoal para que essa situação nunca chegue a existir. Devemos focar nossa comunicação na tolerância e falar abertamente de amor ao próximo e humanidade. Nos gabamos de não termos robôs em nosso trabalho 100% artesanal. Mas não podemos nos orgulhar disso quando casos desse tipo acontecem.

Por isso, reforçamos aqui o compromisso: a empresa Me Gusta Picolés Artesanais não vai deixar mais isso acontecer. Podem confiar! Nossa política sempre foi em prol da diversidade da compaixão e do respeito. A discriminação é um crime e um problema social muito grave. Abraçamos aqui e agora a missão de combater isso!

Gostaríamos de dizer que estamos atrás de uma resolução. Já tomamos as medidas contratuais cabíveis e contatamos os meninos para que pudéssemos expressar nossa solidariedade e nossa vontade absoluta de superar o ocorrido.

Por fim, pedimos desculpas a TODOS os clientes da Me Gusta. Vocês, que sempre foram bem tratados nesse ambiente que é mais que um negócio para gente... É nossa segunda casa.

Consideramos justa TODA forma de amor. Consideramos como família, QUALQUER tipo de família. Aqui tem espaço para o mundo todo! Não vamos deixar que uma expressão tão covarde, violenta e nojenta como a homofobia fale mais alto que o "hmmm" que as pessoas falam depois de tomar nossos sorvetes.

Obrigado pela atenção!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sou viadinho mesmo, por quê?

"E no diminutivo, porque tenho míseros 1,68 na altura e poucos 54kgs de massa corporal. Se fosse mais alto e parrudo seria um viadão! Porque de forma alguma minha sexualidade deveria ser algo usado como ofensa. Bicha? Dona bicha, por favor! Aqui é assim: só tem bicha nessa cidade! As que não são mortas e massacradas pela falsa moral e os bons costumes, são silenciadas pela lei do "pode ser gay, mas seja discreto." DISCRIÇÃO MEU CU! Isso mesmo, meu cu! Ouviram bem? Cu! Aquele orifício que a mulher também "dá" e que o homem quando o faz perde sua macheza. Onde já se viu tanto fiscal do cu alheio como hoje, hein?

Eu e minha galera não vamos interferir na sexualidade de suas crianças, até porquê eu cresci no meio de heterossexuais e hoje sou essa bicha que vos escreve. Faz algum sentido? E não me venham dizer que é demais para a cabeça de uma criança entender que dois homens ou duas mulheres são um casal. Pro inferno com essa ideia! Vocês implantam a ditadura do rosa e azul na cabeça de seus filhos, fazem piadas de cunho preconceituoso na frente deles e querem que eu engula essa? Depois a gente que é gayzista (termo usado por gente que nem mesmo deve saber o que foi o nazismo, para fazer tamanha comparação).

Chega né? Quantas transsexuais são mortas e a grande massa nem fica sabendo? Quantos meninos, meninas, homens e mulheres são estuprados, violentados e também mortos e no dia seguinte a gente só lamenta o preconceito? Nós viramos números, seus babacas! Somos estatísticas, gráficos e a porra toda, menos humanos. Porque sim, parece que nos tiraram o direito de ser quem somos. Eu já ouvi tanto de que tem que ser discreto, ou respeitar pra ser respeitado. Tenho vontade de cuspir e cagar na cara de quem tem a coragem de expor uma ideia tão boçal e ignorante assim. O que separa a bicha afetada do machão fora do meio é a identidade de cada um. Pra que tanta hipocrisia? Já conheci tantos senhores casados e com família que adoravam dar uma escapada no moleque mais próximo. Engraçado né?

Se Marcelo quer ser chamado de Paula, não diz respeito a você! Se André quer apresentar Marcus como seu namorado no almoço de família, ele não fará isso longe das crianças! Se Bruna gosta de usar roupas masculinas e ainda assim ser Bruna, o foda-se é livre, viu?

Não tem problema ser gay e ser discreto. Não tem problema ser gay e ser afeminado. Não tem problema ser gay e gostar de futebol. Não tem problema ser gay pobre, gay rico, morador de favela, tipão da zona sul. Não tem problema ser gay na rua, dentro de casa, não tem problema ser gay do lado dos seus avós ou dos seus sobrinhos. Não tem problema ser bissexual. Não tem problema ser transsexual. Ou pelo menos não deveria ter.

Minha forma de me colocar não é nem a metade dos danos que essa sociedade preconceituosa faz com gente que se sente diferente só pela orientação sexual diferenciada. Vocês podam os sonhos de crianças, ensinam-as sobre religiões que deveriam falar de amor e disseminam o ódio e a intolerância. Vocês chamam de viadinho, bicha, sapatão, filho da puta, desgraçado e arrombado sem notar que certamente alguém da sua família está ouvindo e sentindo-se ofendido. Vocês falam que o preconceito está na nossa cabeça quando na verdade ele continua sendo passado hereditariamente como uma doença. E é crônica."

- Rafael Amorim

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Experimente me amar

"Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor, mas permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria. Me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso - eu odeio qualquer forma de preconceito -, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre, que eu também gosto de ser contrariado. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). 

Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês, mas me faça um louco bom, um louco que ache graça em tudo que rime com louco: lobo, bobo, rouco. Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua família. Isso a gente vê depois… Se calhar. Quero ver você nervoso, inquieto. Tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos. Me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. 

Me rapte! Se nada disso funcionar… Experimente me amar!"

- Martha Medeiros

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A revolução será travesti

"MEU MANIFESTO PELA IGUALDADE: SOBRE SER TRAVESTI E TER SIDO APROVADA EM UMA UNIVERSIDADE FEDERAL.


Hoje, eu tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por eu ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco. O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico. 

Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa , aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi levado a sério como algo que eu, enquanto um ser humano, preciso daquilo para me construir e ter minha subjetividade. 

Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz não ter demanda para meu nome social. 

Eu existo! Nós existimos! 

As violências por conta de minha identidade sempre trouxeram retaliações em salas, corredores e banheiros durante toda minha permanência na escola. Lembro-me de, inúmeras vezes, minhas amigas entrando em rodas feitas por rapazes para me bater e tentarem me salvar. ‘’Para com isso! Deixa ela!’’

Não era só comigo, mas fui a única que aguentei. Vi, de pouco em pouco, outras possíveis travestis e transexuais desaparecendo daquele ambiente, porque ele nunca simbolizou um espaço de acolhimento, educação e aprendizagem. Mas sim de opressão, dor e rejeição. 

Uma vez encontrei na rua com uma das que estudou comigo. Eu voltava do curso, ela ia se prostituir. ‘’Mulher, o que tu ainda faz em lugares desse?’’, ela me perguntou. Indignada, aliás. Ela me questionava com a testa franzida porque eu insistia em permanecer em um lugar que, cada vez mais, desmarcava que eu não era bem-vinda. Quando fui? 

Os banheiros femininos estão com as portas fechadas, o nome nas cadernetas não pode ser alterado e os olhares de escárnio estão por todas as partes. De corredor à sala, de banheiro à secretaria. 

‘’O que ela faz aqui?’’, se perguntam diariamente ao me ver andando na luz do dia. Afinal, eu, enquanto travesti, devo ser uma figura noturna. Assim, sedimentando a posição que a sociedade me atribuiu: de sub-humana. E quando falo isso, meus queridos, estou sendo o mais honesta que posso.
Olhe ao seu redor! Quantas travestis e mulheres trans você se depara no seu dia a dia? Quantas estão na sua sala de aula? Quantas te atendem no supermercado? Quantas são suas médicas?

Espere até as 23hrs. Procure a avenida mais próxima. As encontrará. Porque lá, embaixo do poste clareando a rua escura, é onde nós fomos condicionadas a estar por uma sociedade internalizadamente transfóbica.

Quando vi minha aprovação, foi uma alegria por eu ter tido uma conquista, mas para além disso, eu tive a consciência de forma imediata, que dentro de minhas perspectivas de vida, ver uma pessoa como eu em um espaço acadêmico é algo utópico. Até quando será? Até quando minhas irmãs irão ter que ser submetidas a essas condições de vida?

Sem moradia, sem estudo, sem trabalho. Se prostituindo por 20 reais.

Onde está a dignidade?

Não somos iguais. Eu, travesti, não sou igual a você. Eu, travesti, além de ter batalhado por minha entrada, a partir de agora irei batalhar por minha permanência.

Optei por Pedagogia com a esperança de poder ser um diferencial. De finalmente pautar a busca por uma educação que nos liberta e não mais nos acorrente. 

A escolha é apenas uma: lutar ou lutar. E eu, Maria Clara Araújo, escolhi ser um símbolo de força. 

A revolução será travesti!"

- Maria Clara Araújo

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Oi, ex! Como vai?

Oi ex!

"Hoje não venho com palavras de ódio, nem te culpar por nenhum episódio, tampouco me colocar em cima de um pódio.

Sim, houve um tempo. Tempo em que desejei cascas de banana na sua calçada, um bicho gordo na sua goiaba, 28 pedágios na sua estrada.

Também não vim te acusar, nem te mandar se lascar, muito menos te pedir pra voltar.

A mágoa foi inevitável, mas se história é imutável, talvez tenhamos que pensar num caminho alternativo viável.

Vim perguntar se você está bem, se continua tendo sonhos do além, se contou dos seus medos para mais alguém.

Se seu pai largou o cigarro, se você conseguiu trocar de carro, se houve algo entre a gente que não tenha ficado claro.

Vim dizer que lembrei de você. Porque finalmente comi cordeiro, porque ri conversando com meu porteiro, porque nosso verão foram anos inteiros.

Vim com bandeira branca, sem qualquer indício de cobrança, apenas me divertindo com algumas lembranças.

Vim te contar que encontrei aquela nossa conhecida, a que foi morar em Aparecida, e que ela tá com a bunda super caída.

Vim contar que vi seu colega de trabalho, que ele tá meio grisalho, mas que ainda dá pra quebrar algum galho.

Vim falar de coisas que ninguém mais entenderia, que achei as fotos daquela viagem para a Bahia e que finalmente tem açaí aqui na minha padaria.

Não vim criticar sua nova paquera, nem retomar aquele clima de guerra, nem dizer qualquer coisa que não seja sincera.

Vim te dizer que está tudo ok, que eu tive uma doença, mas sarei, e que aquele meu vizinho, de fato, é gay.

Não vim te propor uma bela amizade, um sorvete no fim da tarde e nem um fim de história marcado por vaidade.

Vim pra te desejar alguma sorte, vim porque já voltei a ser forte e porque sei que memória não respeita pena de morte.

Vim te deixar um abraço, porque te querer bem é o melhor que eu faço e porque, afinal, já chega desse cansaço.

Vim te dizer para ficar em paz, para respeitarmos o que deixamos para trás e para propor, enfim, que a gente não se queira mal, apenas não se queira mais."

- Ruth Manus

Eu não preciso de você

"Eu preciso perder a barriga, preciso de um ferro de passar roupas e preciso mandar lavar o carro. Mas de você eu não preciso. Talvez até eu precise me vestir melhor, usar um corte de cabelo mais moderno e comprar papel higiênico – está acabando. Mas definitivamente eu não preciso de você. Mas eu quero você. Um diabético não deseja a insulina. Eu não adoro meu remédio da tireoide que eu tenho que tomar todos os dias. Mas eu preciso dele. E um diabético precisa da insulina. Ambos por não termos opção. Eu não preciso que você me entenda como ninguém nunca me entendeu, nem que você me acalme como você sempre faz, muito menos preciso daquele carinho no pescoço que você faz sempre quando me beija, como se você fosse a minha esposa e eu um soldado que passou dez anos em uma guerra do outro lado do mundo. Mas eu quero que você me entenda, me acalme e me beije desse jeito. Sempre.

Eu não preciso conversar com você por horas todos os dias, nem deitar no seu colo e ganhar cafuné. Tampouco preciso ouvir você falar apaixonadamente sobre teatro por horas e horas. Mas conversar com você, ganhar cafuné e ouvir você falar – linda! – sobre teatro por horas a fio é o que eu mais quero nesse momento. Não por necessidade, porque se fosse isso, não importaria o que eu sinto, seria somente algo que eu preciso. Eu poderia, hoje por exemplo, ficar em casa, sem fazer nada. Mas eu preferiria sair para passear com você. A minha vida sem você não seria impossível. Eu não ia morrer nem virar um ermitão nas montanhas. Mas com você a minha vida seria muito mais divertida, não há como negar isso.



O meu remédio para ansiedade tem quase o mesmo efeito que você: me acalma, me deixa menos impulsivo e menos ansioso. Mas eu não queria ter que toma-lo. Já você, se pudesse eu tomaria você de quatro em quatro horas, cinco vezes por dia, e o efeito seria sobremaneira melhor que o do remédio. O remédio não fica com os olhos fechados por vários segundos depois que me beija nem fala com voz doce quando precisa me dar uma bronca. Dizer que eu preciso de você seria minimizar todo o bem que você me faz. Seria como dizer que eu preciso de um remédio ou de camisas novas. Poder ser quem eu sou de verdade, sem ter que disfarçar nada nem esconder nem um pedacinho é algo que eu nunca havia experimentado. E admito que é bem melhor do que eu imaginava que pudesse ser. E viver isso não é uma questão de necessidade. É uma questão de liberdade, de paz de espírito. A paz de espírito que você me traz quando me faz carinho enquanto eu dirijo e quando fala, ao final de toda mensagem: “Fica bem”. Não a paz de espírito que eu preciso. Mas a paz de espírito que eu quero. Assim como quero você."

- Léo Luz

A nossa aliança não está no dedo

"Não é no anelar, mas é na ponta dos dedos a nossa aliança. Ali está a sensibilidade, ali está a energia que faz de nós vulcão e brisa de mar. Nossa aliança é a sabedoria de decidir a intensidade do toque, a reciprocidade da intenção. É o tato da barriga do outro nas costas quando nos juntamos para dormir, mesmo que essa posição dure menos de dois minutos. Nossa aliança é o cheiro de café no beijo de bom dia.

Nossa aliança é a minha inocência em amar as pessoas e a sua resistência em acreditar que seja possível amar tanto. É a minha vontade de pedir desculpas por qualquer coisa que eu não tenha feito e a sua mão firme, segurando a minha, e dizendo “calma, essa solidão vai passar”. Nossa aliança é a certeza de que não existe balança perfeita entre as diferenças e semelhanças para um casal, mas a nossa se equilibra sozinha.

É o seu cabelo se adaptando ao meu shampoo, os pelos naturalmente penteados do seu braço me fazendo chorar de felicidade no meio da noite e o tato do meu pé encaixando no seu enquanto dormimos. Nossa aliança é a sua vontade de conhecer o mundo, a minha de não sair do Brasil nunca e a nossa certeza de que a nossa casa é o melhor lugar que pode haver.

Nossa aliança não é cumulativa. Se renova a cada música nova que descobrimos juntos, a cada momento em que conseguimos expulsar nossas intensidades do quarto para sermos leves juntos. É a certeza de que as brigas mais homéricas que tivemos não foram egoístas: na verdade eu briguei pra que você fosse mais feliz e você para que eu sorrisse mais.

Nossa aliança é o choro cúmplice que temos quando temos medo de que a febre nunca passe, mesmo sabendo que ela vai passar. É a fragilidade que escorre em lágrimas porque não tem motivo para esconder: está escancarada nos olhos.

O que nos une é a vontade que eu tenho de que você leve cantadas baratas de garotos lindos em noites com os amigos e a sua mensagem pedindo pra que eu flerte com alguém no boteco. É o desejo de que o outro tenha sempre motivos para ser confiante, para se sentir bem, para ter certeza de que sexo se encontra fácil, mas como o nosso não há. Nossa aliança é a certeza de que não precisamos um do outro, mas nos queremos acima de qualquer coisa.

Uma aliança é circular porque não tem começo, nem fim. O que nos une é a certeza de amor é eterno recomeço."

- Marina Melz

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sobre o medo de se apaixonar de novo

Das dores que a gente carrega na vida, muitas delas doem porque alguém fez doer. É o amor mal resolvido, aquele caso que a gente sabe que, no fim das contas, fez doer o coração. É a promessa que não foi cumprida, a mentira que a gente descobriu quase que sem querer, os desencontros que se tornaram, sem vontade alguma, tão-somente desamor.

É aí que a gente se parte em dois e faz um acordo consigo mesmo, se fechando pra balanço e deixando bem claro, a quem possa interessar, que não tem mais jeito, um beijo e um abraço pra essa coisa de se apaixonar. Parecia bom, né? Sentir friozinho na barriga, fechar os olhos e acordar rapidinho só pra ter certeza de que nada, absolutamente nada, era um sonho bobo que logo deixaria de existir.

Mas sabe qual é a graça da vida? Quando a gente menos espera, a gente se esquece dessas promessas de não se apaixonar de novo, perde o medo de mergulhar fundo, de dar a volta ao mundo por alguém que sabe, de um jeito tão único e especial, arrancar um sorriso nosso a qualquer hora do dia, mesmo quando a gente acha que nem tem motivo pra sorrir.

Hoje deu vontade de dizer que se eu consegui perder esse medo, você vai conseguir também! Nem precisa ter pressa, muito menos achar que qualquer bom dia é cantada e que qualquer cutucada é pedido de namoro. Assim o amor chega. E arrebata. Sem régua que meça, sem balança que pese e sem dizer quando e o quanto chega para, por fim, ficar.



- Milton Schubert