domingo, 17 de janeiro de 2016

Reciprocidade


"Se sou amado, quanto mais amado mais correspondo ao amor. Se sou esquecido, devo esquecer também, pois amor é feito espelho: tem que ser reflexo." 

(Pablo Neruda)

Coleciona-dor


"Tenho muita coisa aqui para te oferecer, mas sabe o que é? Sou incompleto, também preciso receber."

(Caio Fernando de Abreu)

Eu fico com a pureza da resposta das crianças


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

sábado, 2 de janeiro de 2016

Me cansei de você se cansar

"Um dia desses enquanto eu assistia ao pôr-do-sol, uma garota se aproximou e disse: "por que você vem a essa janela todos os dias assistir o sol se pondo sempre do mesmo jeito?". Eu, sem saber o que responder, apenas tive certeza naquele instante de que havia algo de diferente na forma que meu coração processava certas sutilezas. E, assim, eu cresci. Assim, o tempo se passou. Assim, eu assisti mais outros infinitos pores-do-sol sem conseguir enxergar um deles sequer como "sempre do mesmo jeito". Assim, eu cresci sabendo que em um relacionamento os dias serão como o pôr-do-sol: similares, porém nunca os mesmos.



Mas, no cotidiano amoroso atual, quem mais sabe disso? Quem mais consegue admirar o amor todos os dias sem a necessidade de um constante brilho novo? Quem mais consegue se contentar; saber esperar; e amar o que o dia te oferece? Existe um desespero pela necessidade de atualizações dentro do amor que acaba tornando-o inviável, invivível.

Assim, o argumento acaba se tornando sempre o mesmo: o cansaço. As pessoas se cansam dos beijos, dos abraços, das transas. As pessoas se cansam da estabilidade de andar de mãos dadas, de seguir em uma única direção. Se cansam de sonhar, de planejar, de conquistar — no momento certo — algo novo para a vida do casal. E por isso, o amor de verdade é trocado — em forma de uma moeda injusta — por uma vida fria, vivida com gente que pouco se importa, com companhias que não duram mais do que 5 minutos na boca, enchendo cada vez mais os copos, esvaziando cada vez mais o coração.

O fato é que não somos de ferro e iremos sim nos cansar. Nos cansamos do trabalho, dos estudos, da rotina em si, por que não nos cansaríamos do amor? Porém, todas as coisas que fazem um pôr-do-sol nunca ser igual ao outro, deveriam também ser as mesmas que mantivessem as mãos dadas pelo caminho da vida a dois. Se o coração não souber se contentar com o mesmo sorriso largo no rosto, com o mesmo abraço que protege corpo, com a mesma transa que agrada a carne dia após dia, o amor perde o propósito de existir, dando lugar a similares estações de ônibus, que se desembarca a fim de saciar vontades em um curto período de estadia.

Mas eu continuarei aqui, sabendo apreciar o céu, o sol, e tudo o que nunca será igual, mesmo que parecido. Permanecerei doce, mesmo com tanto amor amargo de quem me confundiu com uma dessas estações e se assustou quando descobriu que, na verdade, eu era casa afim de transformá-la em lar."

- Pedro H. Lopes

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Fique com alguém que te inspire

"Fique com alguém que faça planos, que converse com você sobre os nomes dos filhos, a raça do cachorro ou sobre uma possível viagem de final do ano. Ou fique com alguém que não pretende ter filhos, ou que prefira gatos a cachorros, mas que faça planos. Não fique com alguém que está com você sem vontade e sem pretensão alguma, com medo do que pode acontecer amanhã. Não fique com alguém inseguro e que prefere pensar: "Não sabemos o que pode acontecer amanhã". Fique com alguém que te diga: "fica aqui, e vamos realizar o nosso amanhã". Alguém com vontade de realizar o que pensa e alcançar o que sonha. Porque pensar em coisas pra sua vida com alguém, é no mínimo, inspirador.

Fique com alguém que ame viajar, goste de crianças e tenha paciência pra conversar sobre flores e jardins com sua bisavó. Alguém que costuma sorrir ao acordar, mas também que acorde com péssimo humor em certos dias, as pessoas são assim. Desconfie de quem acorda de bem com a vida todos os dias. Fique com alguém que converse sobre os seus sonhos e que torça pra que você os realize, que te dê suporte quando você precisar, que te estenda os braços – e até mesmo o corpo – quando for preciso. Não fique com alguém que parece não gostar quando você põe suas vontades na mesa, alguém que dificulta suas ideias e que ouve você falar sobre os seus desejos com desprezo. Fique com alguém que queira, mas que queira muito, que queira incondicionalmente, que tenha uma vontade absurda de querer, porque tudo o que a gente precisa na vida quando pensamos em dividi-la com alguém é de uma alma que tenha ânimo em dividir o mundo que lhe pertence com você, dividir também a pizza, rachar a conta do táxi, compartilhar o fone de ouvido e até mesmo o último pão com Nutella.



Fique com alguém que queira te ver bem – por dentro e por fora -, não fique com alguém que te ponha regras, limites, porque o amor não precisa da possessividade, porque você tem uma vida ainda que requer liberdade e ninguém deve ousar te prender. Fique com alguém que você goste, não fique com alguém só porque gostam de você. Fique com alguém que te faça que entenda que, algumas vezes, essa pessoa te fará mal porque as pessoas costumam errar, algumas são impulsivas, outras orgulhosas demais, mas poucas deixam o orgulho de lado, admitem o erro, te pedem perdão e se esforçam pra te ver bem de novo. Por isso, fique com alguém que se esforça por você.

Fique com alguém com gostos e costumes diferentes dos seus, isso vai te acrescentar muito, você vai ver. Fique com alguém que goste de baladas, mas também que ame um piquenique no parque, maratona de filmes ou temporadas inteiras da sua série preferida debaixo de um edredom. Fique com alguém que saiba cozinhar ou com alguém que queime o bolo, que deixe o feijão passar do ponto e ria disso. Alguém que tenha erros e defeitos e os assuma, porque as pessoas erram até quando seguem uma receita de cupcake, imagina quando resolvem mergulhar em alguém."

- Iandê Albuquerque

Ainda é tudo seu aqui

"Ainda cantarolo a nossa música no carro enquanto vou ao trabalho. Apesar de todas as lágrimas que a nossa história me rendeu, ainda me pego com um sorriso bobo com as lembranças bonitas que tenho de nós dois. Ainda me dá um aperto no peito pensar que você foi dos poucos que me fizeram mais bem do que mal, mas, mesmo assim, nossa história acabou como todas as outras histórias tortas da minha vida. Era pra gente ser diferente, mas no fim a gente foi exatamente igual.

Esquecer é uma droga, não é? Não sei se pra você também, mas eu venho falhando miseravelmente na missão. À essa altura, você já deveria ter passado. Os outros caras todos passaram e eu me sentia bem forte por aguentar numa boa superar amores fracos. Mas acho que o nosso foi forte o suficiente pra me fazer admitir: nosso amor não foi, ele ainda é.

Eu tentei, não pense que não. Fiz promessa, enchi a cara, saí com caras do Tinder, conheci aquele amigo do namorado da minha amiga que era perfeito pra mim, chorei, pedi pelo-amor-de-Deus, fui pra baladas que odiei, comi brigadeiro. Mas nada. Nada adiantou e eu continuei aqui. Eu continuo. Parece que seu amor insiste em mim.

Então: que se dane. Que se dane que meus amigos dizem que você não me merece, que eu sou bom demais pras suas indecisões, que eu devia te esquecer, que eu devia me apaixonar por outro. Que se dane que ninguém acredita na gente e que, talvez, a gente realmente nunca dê certo. Amor não é isso? Aquela sensação de liberdade quando a gente pula do avião, torcendo pro paraquedas abrir, mas sem ter certeza de nada?

Ainda é tudo seu. O lugar na minha vida, o carinho dos meus pais pelo genro que eles mais gostaram, o convite pra passar o Natal na casa da minha avó. Nossas fotos ainda estão no meu mural porque eu não tive coragem de jogar nós dois no lixo. Ainda é com você, sabe? Que eu quero casar, ter filhos, enfrentar o mundo, morrer de medo de não dar certo, mas mesmo assim continuar tentando. Porque, apesar de tudo parecer contra, eu ainda tô disposto a pelo menos tentar.

E você, me diz: você também tá?"

- Karine Rosa

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mesmo que eu não pareça precisar

"Cuida um pouquinho de mim, mesmo que eu pareça não precisar. Eu tenho esse jeito de quem dá conta de tudo. E dou conta de muita coisa mesmo. Só que não é de tudo, não. E muita coisa eu até posso dar conta, mas careço de algum gesto de afago na alma. Porque tenho sido muito dura comigo, e seu cuidado vem me amolecer um pouco.

Fala que meu cabelo tá bonito, enrosca seus dedos entre os fios e pode se demorar, deixa eu saber que você gosta de me dar carinho, porque gosta da textura que eu tenho, do meu cheiro e da temperatura da gente junto.

Pergunta como foi meu dia e se eu não disser muito, pergunta algo mais e continua com os olhos em mim, com silêncio cheio de presença.

Quando eu estiver cansada abre os braços e me convida para me aninhar.

Diz que viu algo que fez lembrar de mim. Alguém que deu uma risada solta, uma folha caindo leve de uma árvore, uma música que tocou no rádio.

Traz aquele chocolate que eu amo, observa eu fazendo festa e sorri dizendo que só trouxe porque adora me ver assim.

Enquanto me beija, atende os sinais do meu corpo pedindo suas mãos.

Diz que vai ficar tudo bem, se eu acordar chorando por um pesadelo que eu não sei explicar.

Pode me ligar no meio do dia pra me contar alguma história à toa ou só pra ouvir minha voz e deixar eu ouvir a sua.

Presta atenção no que eu digo e no que eu não digo, e me conta de vez em quando que você tá ali acompanhando.

Quando eu estiver pilhada, pode dizer que preciso respirar, que o jeito que eu tô levando as coisas não tá legal, me traz pra realidade, porque às vezes eu viajo mesmo.

Dá um sorrisão pra mim, dá a mão, dá seu ombro, dá abrigo, dá seu beijo, dá um cheiro e um abraço, dá silêncio e suas histórias.

Cuida um pouquinho de mim, porque eu ando meio esquecida de como fazer isso.

Porque mesmo que não pareça, tem hora que preciso só de um gesto que mostre que você me vê, que tá comigo nessa e que eu posso ser quem eu sou. Porque, de verdade, tem hora que eu me esqueço de oferecer isso pra mim. Pode me dar esse lembrete, me levanta o queixo, suave assim, me olha e me lembra o gosto bom do amor que vem de mansinho e aquece a gente por dentro."

- Juliana Garcia

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Se não fosse tudo isso que a gente passou

"Se não fosse tudo isso que a gente passou, eu não teria chegado a esse nível de maturidade que eu cheguei (mas falta muito ainda pra amadurecer). Se não fosse tudo que a gente passou, eu provavelmente estaria mais fraco, teria menos desafios e amigos menos confiáveis. Você foi um filtro na minha vida, fazendo com que coisas e pessoas ficassem para trás e as melhores ficassem para mim. Você saiu de mãos limpas de toda essa confusão em que a gente se meteu.

Chorei muito, chorei por meses, talvez por anos. Mas passou. Mesmo com a sua insistência em cutucar as minhas feridas eu estou inteiro, de pé e muito mais confiante do que era quando a gente esteve junto.

Eu sei que foi muito confuso, que para ambos foi uma merda, mas eu queria de coração que você se acertasse com alguém e fosse feliz. Não em meu benefício, mas aquela máxima diz que gente feliz não enche o saco. E é verdade. Mas eu quero você feliz porque nós não conseguimos alcançar a felicidade juntos e eu entendo que não tinha outro jeito mesmo. E te desejo o melhor.



Enquanto você não se arranja, eu vou colocando meus fones de ouvido e intercalando entre Smiths e Beatles, as bandas que você mais odiava no mundo e que eu parei de ouvir por sua causa. Você deixou de fazer um montão de coisas por minha causa também, mas eu descobri – com o tempo, aquele senhor da razão – que ninguém deve se privar de nada pelo outro. Mesmo que as reações sejam exageradas, os beijos curtos e a felicidade distante. Queria que você me desculpasse pelas mágoas que eu deixei e eu te desculpo pelas suas também. A vida é assim, a gente vai aprendendo e descobrindo que quando é amor a gente reconhece na hora. Mesmo começando com aquela paixão avassaladora de transar 12 horas por dia e suportar a terrível conchinha nesse país tropical.

Eu quero que você saiba que o que a gente viveu pode não ter sido a melhor coisa do mundo – looooooonge disso – mas que eu tô continuando minha vida independente de tudo que você acabou tolhendo. E espero que você consiga prosseguir apesar de todas as limitações que eu acabei colocando em você também.

Fica em paz, quero que você seja uma pessoa foda. Porque eu também quero ser e desejo isso para todo mundo. Até para você."

- Ju Umbelino

sábado, 21 de novembro de 2015

Como vi meu ex se apaixonar por outra pelo Facebook

"Nós terminamos no estacionamento de uma pizzaria. Ele queria casar. Queria filhos, um emprego decente e um quintal grande para ter cachorros. Eu queria Nova York. E Londres. Talvez a Tailândia por um ou dois anos. Queria escrever e morar num apartamento horrível e viver uma paixão desajustada. Eu tinha acabado de fazer 21 anos e ainda não queria algo tão fácil.

Pedimos uma pizza para viagem, sentamos no carro dele e comemos em silêncio. Preferimos isso a pagar o serviço e ouvir a rádio horrível dos anos 90 que tocava dentro do restaurante, ou talvez fosse simplesmente melhor comer em silêncio.

“Tem alguma coisa errada”, eu falei.

“Erraram o pedido?”, ele perguntou preocupado, me lembrando porque eu amava ele.

“Não. Não com a pizza. Com a gente”, eu falei.

Sobrou um pouco de molho no queixo dele. Limpei com o dedo, mesmo sem saber se deveria. Chorando, nos prometemos várias coisas impossíveis, com a pizza não-comida gelando nos nossos pés. Quem sabe em alguns anos, falamos. E eu acreditei nisso por mais tempo do que deveria.

Foi minha justificativa para, três meses depois, espiar o perfil de Facebook dele durante uma madrugada. Eu me prometi que só queria saber se eles estava bem. Eu me convenci que só queria saber se ele tinha conseguido um emprego. Sabe, chechar se está tudo bem com os pais deles. Sempre havia um motivo para visitar o perfil dele.

A primeira foto deles juntos foi tirada em uma festa. Acho que era uma festa pelo copo de plástico na mão dela e o sorrisinho meio bêbado dele – aquele do qual eu tanto tirava sarro. Ele segurava ela pela cintura e enquanto eu olhava para a tela do computador, tentei não me lembrar de como eu me sentia quando ele colocava a mão na minha cintura. Talvez eles sejam só amigos. Será que eles já se conheciam enquanto namorávamos? Fiquei pensando se já tinham dormido juntos.

Eu me lembrei que não tinha o direito de me importar com isso. Mas eu me importei. Eu fechei o laptop com tudo. Já tinha me torturado o suficiente por uma noite. Mas assim que eu dormi, sonhei com ele.

Era inverno. A neve estava suja no estacionamento da loja de conveniência onde compramos papel higiênico. Estávamos encostados no carro e eu sentia que estava congelando. Ele respirou perto de mim, aquela nuvem de ar quente me aquecendo. Como em qualquer sonho desse tipo, a história não fazia sentido algum. Por que estávamos parados e não andando? Por que estávamos dirigindo o carro da minha mãe em vez do dele? Por que ele estava sem casaco? Por que ainda estávamos juntos?

Eu tirei minhas luvas e coloquei as mãos por baixo da camiseta dele, procurando seu peito. Ele sentiu arrepio e sorriu para mim.

“Eu só estou aqui para aquecer suas mãos, né?”, ele disse.

“Talvez”, eu dei uma risadinha.

Acordei com frio, procurando por ele na minha cama.

O momento depois de acordar sempre foi o pior de todos. Naquele momento, eu sentia que o sonho era real, que talvez a gente nunca tivesse terminado. Naquele momento em que eu voltava a dormir, desejando mais do que tudo colocar minhas mãos no peito dele. Aquele momento em que eu lembrava quão fácil era amar e ser amada e que parecia impossível que aquilo não fosse mais o caso.

Eu peguei meu celular no criado-mudo e dei uma olhada no Twitter. Eu precisava estar com ele, do jeito que fosse. Lendo os posts dele, conseguia ouvir a sua voz. Eu imaginava ele dando risada das próprias piadas antes de postar e sorria pensando nisso. Eu ouvia tão bem a voz dele que por um minuto nem me senti tão sozinha.

Seis meses depois de terminar, outra foto surgiu: ele e a garota do copo de plástico num jogo de baseball. Senti um nó no estômago quando entendi que ela se tornaria alguém presente na vida dele. Olhei aquela foto, cada um segurava uma bebida. Me perguntei se ela gostava de esportes ou só estava lá pela cerveja e pelos cachorros quentes, como eu. Ou se ela adorava olhar a calça justa dos jogadores, ou falar do pessoal bêbado em volta dela. Ou se eles estavam se divertindo.

Vendo eles juntos, com aqueles sorrisos sinceros e copos cheios, ainda assim não entendi que ele tinha superado. Talvez em alguns anos – eu sempre lembrava daquela promessa com facilidade. Eu não queria ele agora, mas isso não significava que eu não poderia ter ele nunca mais.

Eu não conseguia aceitar que ele podia se apaixonar por outra enquanto eu ainda o amava. Naquela época, eu não entendia que o amor podia ser algo tão platônico. Eu não conseguia imaginar que ele falava para ela coisas que tinha falado para mim, ou que olhava para ela do mesmo jeito que me olhou um dia.

Estava tão iludida que sentia dó dela. Aquela coitada que tinha um namorado que amava a ex. Engraçado como é fácil acreditar no inacreditável para não se magoar.

Eu pensava nele deitado na cama, olhando para o teto, desejando que aquela garota ao lado dele fosse eu. Era mais fácil imaginar que ele não conseguia dormir, me procurando pela cama, do que acreditar na real: que ele não estava pensando em mim.

A internet me contou várias coisas sobre ela. Que ela era linda e inteligente. Que ela era sociável e tinha um sorriso doce. Eu queria odiá-la, mas não conseguia. Ela tirava fotos com crianças e sorria de forma muito sincera. Ela ria de um jeito que me parecia autêntico. Ela parecia uma daquelas mulheres que não demora para se arrumar.

Olhava para a foto do perfil dela e depois para a do meu, tentando sair de dentro de mim e ser um juiz justo comparando nós duas. Olhava para nossos perfis e via tudo que a gente tinha em comum, e tudo que a gente não tinha. Meu rosto é mais angular que o dela, meu cabelo é menos loiros. Meu sorriso não é tão espontâneo, a não ser nas fotos em que eu estava com ele. Ela fazia mais trabalho voluntário que eu, mas eu parecia sair mais. Ela parecia vir de uma família com dinheiro, e eu parecia viver de roupas de doação e uma lista de supermercado enxuta. A gente tinha nossas diferenças, mas também tinha similaridades óbvias: amávamos nossas famílias, nossos amigos e o mesmo cara.

Foram meses assistindo eles se marcarem em fotos até a mudança do status de relacionamento. Eu sofria vendo eles trocando piadas internas no Twitter e especulava do que eles estavam falando. Percebi quando ela ficou amiga das irmãs dele e tirou fotos com a sogra. Fui a espectadora da viagem de férias dele, enquanto ele usava um relógio que foi presente meu. Vi eles dirigindo juntos no carro em que nos beijamos - o mesmo carro em que terminamos.

Eu vi o relacionamento deles chegar a fases que o nosso tinha chegado, e a fases que não tinha.

Eu me perguntava se eles brigavam. Me perguntava se o que ele fazia que tanto me irritava também incomodava ela. Me perguntava se ela também queria o quintal grande e o emprego estável.

Sim, eu poderia parar de acompanhar eles a qualquer momento, mas era um vício. Eu queria saber o que ia acontecer. Se eles iam dar certo. Ou, talvez, se não iam.

Apesar de me torturar tanto, nunca falei com ele.

Eu ainda queria Nova York. E Londres. E talvez a Tailândia por um ou dois anos. Nada tinha mudado. Mas eu gostava de ver as fotos daquele dentucinho. Eu gostava das caras bobas que ele fazia quando não estava pronto para a foto. Ele me lembrava de como era me apaixonar, e eu gostava disso.

Nós estávamos em caminhos opostos, mas eu ainda sentia uma atração inexplicável por ele. Era tão bom ter ele ali, tão acessível, mesmo se ele não estivesse de fato.

Eu não me achava uma stalker, mas talvez eu fosse – espiando a vida feliz de alguém por uma janela virtual. Acho que pensava que, só por vê-lo na tela do computador, de alguma forma ele ainda era meu e talvez eu não estivesse sozinha e talvez alguém me amasse. Talvez ele também estivesse espiando minha vida.

Com o passar do tempo, entrei menos no perfil dele. E quando eu entrava, não doía mais tanto. Ao contrário, passou a ser quase um tédio, uma dor familiar que deixa cicatriz, mas você sente mais a dor pela lembrança do que por qualquer outra coisa.

Comecei a conseguir passar uma hora sem pensar nele. Depois foram algumas horas, um dia, uma semana, um mês.

Hoje, quando entro no perfil dele, quase não sinto mais nada. Tenho orgulho quando algo de bom acontece na carreira dele, e fico triste se alguém morre. Fico feliz por ele estar apaixonado. Fico feliz que a garota do copo de plástico encontrou um homem tão bom.

Talvez hoje ele seja diferente. Não dê aquele ronquinho quando ri ou não faça sanduíche de pizza antes de comer. Talvez eu não conheça mais ele. Ainda assim, entrar no perfil dele me lembra de como fui capaz de amar e que sou digna de ser amada. Eu me lembro de que quando você realmente se importa com a outra pessoa, você nunca realmente a esquece."

- Kirsten King